Herdeiros da Escravatura | Uba Budo
Bafejados pelas condições adversas de fome que, na década de 40 do século XX, assolou de forma impiedosa Cabo Verde, os colonos portugueses encontraram na contratação de serviçais cabo-verdianos uma fonte inesgotável de recursos capaz de empreender esta pesada tarefa. Para os desafortunados cabo-verdianos, o contrato representava a esperança e a única oportunidade de fugirem à fome e morte que reinava nas suas terras. Apesar de cientes do interesseiro aproveitamento da sua situação de desgraça, os cabo-verdianos abraçaram o contrato que lhes foi oferecido, envoltos numa mescla de sentimentos díspares, motivações variadas e sonhos de prosperidade nas terras férteis de São Tomé e Príncipe. A dura realidade das imagens e as resignadas expressões dos últimos contratados documentados neste livro, revelam-nos a severa vida outrora vivida em total dedicação à terra que abraçaram como sua e que, mais de quarenta anos depois, afirmam preferir morrer a terem de ficar sem ela. Stricken by the adverse conditions of extreme hunger that, in the 40’s of the XX century, unmercifully ravage the Cape Verde, the portuguese colonists found in the recruitment of Cape-Verdean servants an inexhaustible source of resources capable of enduring such arduous labor. For the unfortunate Cape-Verdeans, the recruitment represented a hope and the only opportunity of escaping the hunger and death reign their homeland. Even though conscious of the likelihood of being taken advantage of, in their misfortune, the Cape-Verdeans embraced the recruitment offered to them, in a mix of dissimilar feelings, miscellaneous motivations and dreams of prosperity in the fertile lands of S. Tomé & Principe. The hard fact are the images and the expressions of resignation of the last recruited documented in the book, revealing us the severe life once dedicated to a land they embraced as their own and that, 40 years after, they affirm rather dying that being taken away from it.
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Category
São Tomé
About This Project

Uns metros mais à frente, o denso mato, apenas cortado pela teimosamente denominada “estrada principal”, abre-se numa imensa clareira de vida e vidas. Velhos, menos velhos, jovens e crianças deambulam por toda a área. Os meus olhos, ainda a habituarem-se à súbita mudança da paisagem, fixam-se numa imensa casa, omnipresente a todo o espaço circundante. Pelas linhas arquitetónicas marcadamente coloniais e a posição central a todo o espaço – habitual em todas as roças de São Tomé – rapidamente a identifico como a antiga Casa da Administração da roça. Primeiro, penso que talvez o infortúnio de algum incêndio lhe tenha levado a dignidade de outrora. Depois, apercebo-me que a sua inusitada aparência é somente fruto da extrema e profunda degradação acumulada ao longo dos últimos 40 anos. O meu choque acentua-se ao constatar que, apesar das condições degradantes, da total insegurança da estrutura e da completa falência de condições de habitabilidade, aquela gigantesca casa colonial é ainda um espaço concorrido, abrigo de muitas famílias e o centro das vidas dos que nela insistem em a tornar sua.

Sou despertado por uma voz que, ao meu lado e quase em sussurro, me diz que “nas dependências o cenário é ainda pior”. Custa-me a acreditar, mas desta vez já não questiono a veracidade da afirmação; limito-me a abanar lentamente com cabeça como que em sinal de contida reprovação do que os meus olhos presenciam. Perante tal cenário de degradação física e humana, interiorizo vezes sem conta as já fadadas perguntas: o que de tão grave se terá passado durante as últimas quatro décadas para que tamanha degradação anímica tenha tomado conta destas gentes? Que eventos terão contribuído para isolar social e economicamente estas comunidades em terras de São Tomé e Príncipe? Porque é que, contrariamente às emigrações de cabo-verdianos para outras latitudes, estas, ocorridas para o arquipélago do equador, tiveram este triste desfecho?

in Herdeiros da Escravatura